sexta-feira, 1 de abril de 2011

Roberto Carlos e a Ditadura Militar de 64

por Urariano Mota,

As datas, os aniversários, têm um poder evocativo muito forte. Esta semana me veio de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? Quais canções, que músico seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril?

Num estalo me veio que Roberto Carlos deve ter sido o compositor mais representativo da ditadura. Não sei se num curto espaço conseguirei ser claro. Mas tento. Os mais velhos sabem que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com os rádios, em todos os lugares, tocando

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem e eu estou a lhe esperar
só tenho você no meu pensamento
e a sua ausência é todo meu tormento
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”

Quando Roberto Carlos explodiu os rádios do Brasil, ele cresceu em um programa que arrebentou em 65. O programa Jovem Guarda se opunha ao O Fino da Bossa, com Elis. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha guarda do samba e os compositores de esquerda, o Jovem Guarda…

“Eu vou contar pra todos a história de um rapaz
que tinha há muito tempo a fama de ser mau..”

“O Rei, o Rei não tem culpa…”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa…”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não teve culpa de fazer o medíocre, de falar aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal havia em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? É claro que ele não teve culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool.

Mas é sintomático nele a passagem de cantor da juventude para o “romântico”. Essa passagem se deu na medida em que os jovens de todo o mundo deixaram de ser apenas um mercado de calças Lee e Coca-Cola, e passaram a movimentos contra a guerra do Vietnã, até mesmo em festivais de rock, como em Woodstock. Ou, se quiserem numa versão mais brasileira, o Rei Roberto se torna um senhor “romântico” na medida em que as botas militares pisam com mais força a vida brasileira. Ora, nesses angustiantes anos o que compõe o jovem, o ex-jovem, que um dia desejou que tudo mais fosse para o inferno? – Eu te amo, eu te amo, eu te amo…

É claro que a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se deu pelo envelhecimento do seu público. De 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5 correm sangue e raiva da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo. Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é “Vista a roupa, meu bem” (e vamos nos casar). Se fizéssemos um gráfico, se projetássemos curvas de repressão política e de “romantismo” de Roberto Carlos, veríamos que o ápice das duas curvas é seu ponto de encontro.

Enfim, o namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância. O Rei não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição. O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam. Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que levantavam o mundo ordenado pelo regime. Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibia-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que fez o nosso Rei? Irrompeu com uma canção que era um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, ora, o Rei ora: “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”.

Os brasileiros executados sob tortura não estavam com Jesus. Nem Jesus com eles.



@@@@@

Urariano Mota é um escritor e jornalista pernambucano de Recife, autor do livro Os Corações Futuristas, romance sobre jovens perseguidos em Pernambuco durante a ditadura militar.

18 comentários:

RAYMUNDO JOSÉ disse...

Olá João.

Parabéns pelo seu trabalho. Estamos recebendo suas newsletter.

Ele já faz parte da nossa fonte de matérias e comentários para com a nossa rádio.

Por isso, estou te propondo uma parceria: uma troca de links de nossos blogs.

Será um prazer estar na sua lista de blogs, o que farei o mesmo com o seu link na minha lista.

Vamos fechar esta parceria?

Meu Blog:
Raymundo José - Sinal Verde pra você
http://www.raymundjose.blogspot.com
meu e-mail:
silvar7770@globo.com
MSN: raymundojose10@hotmail.com

Nossa Rádio
Sinal Verde FM
www.fmsinalverde.com.br

Veja lá que já sou seu seguidor, agora conto com a sua participação e efetivação nesta parceria, seguindo o meu blog.

Também: sermos parceiros nos blogs

Segue meu código HTML(Copie e cole no seu blog):


Estou aguardando contato com posicionamento ref. esta proposta

abraço

Raymundo José

Dodó Macedo disse...

Desde 1959, Roberto, fã de João Gilberto e Tito Madi, só cantava coisas românticas. Lançou seu primeiro bolachão - 'Louco por você' -, mas o disco encalhou, e a crítica baixou porrada acusando-o de reles imitador de João Gilberto.
Roberto, então, influenciado por Elvis e (pouco depois) Beatles, aderiu ao iê-iê-iê, mas continuou fiel ao romantismo (pois Elvis e Beatles cultivavam muitas baladas): gravou músicas próprias e de parceiros brasileiros, bem como fez versões de rocks (melhor seria dizer rockabillies) e estourou nas paradas. Quando veio o golpe de 1964, continuou na dele.
Depois dos rocks/baladas, teve a fase gospel, fase motel etc, mas sempre puxando pro romantisco. De modo que não dá pra embarcar nessa do Urariano. A Bossa Nova também teve início nos anos 1950, era explicitamente romântica (o amor, o sorriso, a flor, o barquinho), e é hoje ainda altamente cultuada, com muita justiça.
O que me deixaria desapontado seria o Roberto, por exemplo, vir cantando músicas de protesto até o início de 1964 e mudar o discurso após o golpe - ou começar a fazer o elogio da direita reaça a partir do golpe. E isso ele não fez.
Muitos entendem que a omissão política é uma forma de fazer política, e certamente o é, mas todo cidadão tem o direito de assim agir.
Tudo somado, o fato é que o Roberto tem méritos pessoais que justificam suas cinco décadas de sucesso permanente.
Um abraço.

Uraruano Mota disse...

Magnífica edição.
Acrescente, por favor, que sou autor também de "Soledad no Recife", publicado pela Boitempo. O livro recria os últimos dias da brava Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury.
Abraço fraterno.

Gerson Carneiro disse...

Você tem uma ideologia
Eu tenho outra opinião

Você é o pierrô-retrocesso
Com a graça de Deus
Tamos fazendo sucesso

Hei, Rei!
Eu também errei
Estamos na estrada certa
A trilha louca do poeta

Hei Rei - Cazuza

Pedro Paulo disse...

Alem de tudo gosta de um plágio. http://canal100.blogspot.com/2007/07/plgio.html

Se voce achar que é montagem veja o filme http://www.viddler.com/explore/ligiscrazy/videos/7/

P, Monteiro disse...

Meu pai de origem bem humilde sitiante semi analfabeto, e qdo pergunto pra ele sobre a ditadura, ele me responde, "Só ouvia dizer que não podia falar mal do governo..só isso, e que muitos vereadores da nossa região sumiram naquele tempo, pq eram contra as coisas do governo, e que na roca, ouviam sempre sobre histórias de perseguição. Mas pra gente que não mexia com isso, ahh não mudava nada tudo era igual (as mesmas difculdades pra ganhar de sempre p/ ganhar a vida)". O que ele lembra era de ter levado meu irmão mais velho na época (nenenzinho) que estava muito doente, e os médicos fazendo uma associação ao PTB falavam assim: "não se preocupe pai, esse ptbzinho vai ficar bom, vai sobreviver" . De fato meu irmão sobreviveu, mas o PTB foi fechado. O que entendo disso é que se na época a maioria da população contasse com um grau de instrução melhor, acho que o golpe não tinha durado tanto, não teriam aceitado a alienação advinda de todos os meus midiaticos, artisiticos, etc.

Neuza disse...

Muito bom! Lúcida análise. Sou daquela época, mas em vez de jovem guarda já curtia Chico, Edu Lobo, Gil e tantos outros excelentes artistas que iluminaram aquele tempo de escuridão. E nunca, nunca consegui entander o que o bom-mocinho babaca tem de rei....

Lucas disse...

Discordo totalmente da matéria, não acho que culpabilizar um artista, pelo papel que ele exerceu ao não tomar uma postura crítica tenha a ver com o fato de ele apoiar ou não a ditadura. Então que culpem toda a jovem guarda, e os bregas por não terem adotado postura críticas. Isso revela que muitas vezes até entre os que se dizem de esquerda, existe um certo orgulho em regurgitar ranços da época da ditadura a algumas pessoas que são injustamente criticadas.

O fato é que a postura do cantor pode ter servido aos propósitos da ditadura, mas isso não implica na responsabilidade dele ao que aconteceu.

Lucas Romântico disse...

Não se podia fazer romantismo naquela época?

Pelo que me consta, por conta da pluralidade inerente à condição humana, as pessoas têm diferentes aptidões. Nem todos têm interesse por política, seja por preguiça, seja por falta de consciência crítica, etc.

De modo que a maioria dos brasileiros tentatava levar a vida da maneira que podia naquele período, indiferente aos problemas políticos de então.

Os que foram para o sacrifício, os garantidores da democracia atual, foram uma minoria esclarecida e abnegada.

Não entendo que artista tenha um obrigatório e necessário compromisso com política. Não vejo o Roberto Carlos escrevendo músicas capazes de competir com as de Geraldo Vandré em termos de protesto, p. ex.

Zé Roberto disse...

Jovem Guarda e Bossa Nova basta ver o nicho em que cada uma atuava. JOVEM GUARDA: Rua Augusta e adjacências - BOSSA NOVA: Rua Maria Antônia e adjacências. É a diferença.

Wanderley disse...

Coincidência é que nasceu junto com a Globo e onde continua até hoje, inclusive fazendo show em praia (Copacabana) com cachê (da Globo) de 5 milhões de Reais. Ou será alguma lavagem de décadas de favores e fidelidade?
E porque do rompimento com o Erasmo que até hoje continua covardemente calado?
Até a reaça CNBB bota uma graninha lá em troca de canções melequentas falando do produto da fábrica do santo da vez.
Será verdade que ele consultou o papa João de Deus sobre a possibilidade de canonoizar a finada Laura? Não duvido de nada desse que continua sendo o masi dissimulado, cínico e enganador artista brasileiro.
O Simonal não tinha a Globo e só contava com a já decadente Tupy, por isso sobrou pra ele com a pecha e acusações de dedo duro.
E este Rei de cara de pau com Coroa melda de sangue e dinheiro sujo dos Marinhos,é o que?

Sherlock Song disse...

Por falar em plágios e descobertas de compras de música comprovada e sepultada em Chernobil pela Globo...

A música de fundo é um tango argentino, autoria de Carlos Di Sarli e se chama "cortando camiños"... no e-mule você pode baixar e ouvir o plágio!

http://canal100.blogspot.com/2007/07/plgio.html


http://www.viddler.com/explore/ligiscrazy/videos/7/

Leodenis disse...

Justiça(mesmo) se faça à Globo em tudo que faz.
Vejam que paixão mais cretina e descabida que faz a alienação. Tudo bem que eram tempos em que a informação tinha dono. Mas, e hoje, com a máscara da bandidagem do passado caindo todo dia (e comprovada) pela internet no mundo todo? Pessoas esquecem o sofrimento de milhares de famílias(até hoje) por causa de lembranças embaladas por um som fajuto e encomendado pelo esquema da tirania pós 64.
Fica escancarada a farsa à condenação aos crimes da ditadura, quando se toca na ferida Roberto Carlos Marinho Braga.

Heitor disse...

Definitivamente, a Presidenta Dilma não tem cara de paisagem!

Eu tinha 10 anos de idade em 31 de março de 1964. Quinta-feira agora, a data passou em branco pela primeira vez na minha vida. Nada de cerimônias oficiais cretinas, nada de bofetadas na cara da sociedade civil, na minha cara. Um veto peremptório, partido de quem sabe mandar e ser mandado, de quem sabe o seu lugar no mundo, reduziu a inferno, o que um general de brilhante carreira militar - dizem - no auge do seu prestígio, não soube defender - a sua própria honra. Pagou caro por não ter noção da besteira que pretendeu fazer numa palestra a favor do Golpe fora da lei, imoral feito em 64.

S. R. Tuppan disse...

*
O Jenipapo - sem papas na língua.

RC já é conhecido por só querer se 'dar bem': "de que vale a minha boa vida de playboy?" - ele (e @s ceg@s que o seguem) poderia refletir sobre essa frase.

"E que tudo mais vá pro inferno" é um verso de Vladimir Maiakovsky [http://migre.me/4b9Ve], em contexto e significado bem diferentes do us(urp)ado pelo 'jovenguardista':

"Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é para brilhar,
que tudo mais vá para o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol."

E o mau costume de tant@s, ainda hoje, há quase 122 anos da Proclamação da República, chamarem de 'rei/rainha', desde restaurante e loja até fuleiros cantor e loirapresentadora?!

Rei de que? Só se for da fuleiragem.

Saudações Poéticas!

.*.

Mercedes Cardozo de Lima disse...

Do prof. Fábio Koifmann, graduado em Direito e História; pesquisador, a respeito dos arquivos públicos no Brasil.

As limitações legais não são criações dos arquivos. Um aspecto que a legislação atual também é absoluta e absurdamente errada é a que diz respeito à limitação ou restrição de realização livros biograficos. O caso mais impressionante foi do cantor Roberto Carlos. O pesquisador utilizou-se tão somente de material publicado na mídia e de fontes antes já publicadas. Mesmo assim, a justiça mandou recolher o livro, sendo que no dia do julgamento, causa ganha ao cantar, o juiz do caso solicitou que tirassem uma foto dele ao lado de Roberto Carlos. Esse foi o caso mais famoso, mas existiram outros. Esse tipo de restrição é bastante prejudicial ao historiador. Penso que os direitos dos personagens e herdeiros devam claro, ser resguardados. Existindo calúnia ou difamação e inexistindo provas do que foi afirmado, o autor responde.

zan disse...

Sou fã de Roberto Carlos dos anos 60 e meados dos 70, dos oitenta em diante acho intragável, mas perdou-o porque o acho totalmente incapaz de perceber porque ele foi usado pela ditadura ou pela Globo. Acho que ele é politicamente incapaz de perceber isso, porque é incapaz de perceber aquilo... Escrevo isso enquanto ouço-o cantar "Os sete cabeludos" e "Noite de terror", do terceiro lp dele...

Mr. MAC disse...

Oi Urariano,

Muito bom seu artigo sobre o "rei do plágio" e os militares.
Eu tenho uma história real muito interessante, sobre um plágio dele. Na verdade me interessaria mais se houvesse um espaço para divulgar meu trabalho musical.

É só me contactar por e-mail.

Grande abraço!
Marco

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